Há uns anos, assisti a uma conferencia no GAS Porto (Grupo de Apoio Solidário do Porto) sobre Economia da Felicidade. Infelizmente não me lembro do nome do orador português, contudo fiquei entusiasmado com a pertinência da sua intervenção. Começou por colocar uma imagem de várias vias rápidas sobrepostas, cerca de oito vias, uma fotografia oriunda da cidade de Tóquio. Perguntou à plateia (como forma de principiar a conversa) se era este o caminho que a humanidade queria seguir?
Adorei a pergunta e o tema, porque precisamos deste tipo de intervenções para sermos questionados quanto ao decurso da vida humana. A humanidade seguiu esse caminho. O espelho da evolução que aquela imagem representa, não se deu apenas no âmbito cimentoso das vias rápidas. Em diversos contextos da nossa vida pessoal, essa sobreposição, também se deu.
Nunca possuímos tão boas condições materiais como no mundo hodierno. Basta ver: o carro mais simples, ou a casa mais modesta, seriam considerados bens de luxo, comparativamente com o que tínhamos há cem ou cento e cinquenta anos – altura em que surgiram as primeiras viaturas. Ainda assim, a nossa insatisfação reina na posse desses bens tidos como arcaicos. Nos dias de hoje, milhões de pessoas conheceram mais do mundo, que o mais célebre dos homens de há quinhentos anos. Ainda assim, a nossa insatisfação reina. E pior, fruto da nossa cultura materialista global, vai continuar a reinar. O melhor carro de hoje, daqui a cem anos, será considerado carro de pessoa pobre. Estamos reféns de um sistema que tem esta génese. Consequentemente, o número de medicamentos para nos ajudarem a viver neste modelo que se instilou em nós, aumenta de dia para dia.
Vivemos sem alma.
Esquecemo-nos que o mundo real é composto por uma parte visível e por uma parte invisível. Partes que antigamente estavam ligadas e manifestadas na vida do dia a dia.
Vivemos para satisfazer o lado visível da vida. Justamente porque o modelo atual valoriza e educa somente para o lado visível da vida. É como só ver os frutos da árvore.
Esta sociedade diz-nos: se vais ao psicólogo, a um coach, se fazes um retiro, se compras um livro de auto-ajuda é porque tens um problema. Ao invés, devia dizer: se vais a um psicólogo, a um coach, se fazes um retiro, se compras um livro de auto-ajuda é porque estás a crescer. A integrar. A alimentar a alma.
A astrologia diz-me que todos nós nascemos com um propósito de enriquecimento da nossa alma. Este tipo de enriquecimento significa que todos nós, cada um nas suas questões, precisa “afinar” certos aspetos pessoais. E está no sítio certo para o fazer. A experiência de vida de cada um, a isso levará. Portanto, colocar uma nova via rápida sobre outra não resolve nenhum problema. Comprar o melhor carro. Obter a promoção. Fazer a melhor viagem. Devemos perguntar, cada um a si próprio, “O que me quer dizer a minha vida? O que me quer dizer aquilo que eu vivo, e a manifestação desse meu viver?”
Há uma coisa que eu fui levado a perceber: não podemos estar à espera que as sociedades em que vivemos mudem. Nem aqueles que nos rodeiam mudem. Cada um de nós tem de fazer essa mudança, por si próprio.
Há um ditado turco que diz: não importa há quanto tempo andas no caminho errado, volta para trás.
E é este o ponto central deste artigo: a nossa alma tem um alimento próprio. Que nos acalenta.
Não descure o seu.

