Calculo que existam no mundo imensas formas de exercer a parentalidade, provavelmente tantas quanto o número de pais e mães existentes. Sobre o tema haveria certamente um rol de conteúdos interessantes por dizer. Hoje escrevo sobre um determinado género de pai e de mãe com o qual me identifico há vários anos. Vou chamar-lhe de Pai Astrológico e de Mãe Astrológica. Os Pais Astrológicos, ao contrário do que se possa pensar quando lemos o termo pela primeira vez, não designa pais que andam com a cabeça nas nuvens ou sempre a observar as estrelas – a menos que viajem de avião ou saltem de paraquedas – antes pelo contrário, são progenitores com os pés bem assentes no chão. Isto é, são pais conscientes das características dos seus filhos.
A consciência astrológica é uma consciência que tem em conta o perfil único, inato, de cada individuo – para o caso que nos importa neste artigo: de cada criança. As características de cada criança, se estivermos atentos no dia a dia, percebemo-las como únicas e singulares desde cedo. Ao longo do tempo tivemos várias escolas que levaram em consideração essas características únicas de cada ser. O caso mais conhecido e inspirador no mundo foi o da escola Summerhill. Talvez a expressão: “Liberdade, Responsabilidade” pudesse fazer jus a essa metodologia de ensino. O aluno podia aprender à sua velocidade, de acordo com a sua vontade e forma de ser. A metodologia de ensino praticada nessa escola dava liberdade a essa singularidade.
O caso de Gillian Lynne pode servir-nos de inspiração, e servir como exemplo perentório quanto à importância de percebermos a singularidade de cada criança. A falta de concentração da menina nas aulas e a sua permanente inquietude incomodavam os professores, e o seu fraco aproveitamento escolar refletia algo a resolver. Em desespero, a mãe decidiu levar a criança a um médico. Enquanto conversava com a mãe de Lynne o médico observava a menina com atenção. Talvez tenha bastado a experiência profissional do médico, ou uma quanta consciência astrológica para diagnosticar o problema. O médico pediu à menina uns minutos para poder falar com a sua mãe. Antes de se afastar ligou o rádio. E bastaram uns segundos para dizer à mãe da menina que observasse o interior do gabinete. A menina dançava em frente ao rádio. A mãe acabou por seguir a sugestão do médico. Colocou Lynne numa escola de dança, e veja-se o que aconteceu: a menina cresceu e acabou por fazer uma carreira de sucesso no mundo da dança, tendo-se destacado sobretudo como coreógrafa.
Os pais astrológicos são então pais que estão conscientes das características próprias de cada filho e educam e gerem o seu crescimento com esse prisma, tendo por base a singularidade dessa alma. Ao invés do pai e mãe que pretendem, por exemplo, que o seu filho ou filha sigam a sua atual profissão ou negócio, sem que exista qualquer vínculo emocional a tal atividade.
Mas os Pais Astrológicos não têm uma consciência unidirecional: uma consciência de pai/mãe para com o filho ou filha somente. Têm também uma consciência bidirecional. A consciência do que o filho/filha geram no próprio pai ou mãe.
Que aspetos precisam os Pais Astrológicos desenvolver em si próprios em função de um determinado perfil da criança? No meu livro A Mais Bela Profissão do Mundo, de forma leve e engraçada, explorei a questão mostrando esse tipo de aprendizagem específica, que diz respeito a um determinado pai ou a uma determinada mãe. São características e recursos a desenvolver, semelhantes aos recursos a desenvolver para desempenharmos algumas profissões.
Os Pais Astrológicos são pessoas que também crescem com a educação das crianças. Cada pai, e cada mãe, com as suas necessidades (Profissões) específicas.
Partilho o texto de uma dessas Profissões: Cardiologista
Entrei no médico às primeiras horas da manhã, numa segunda-feira, queixando-me de um aperto forasteiro no peito. O médico pergunta-me se tinha tropeçado, embatido nalgum lugar. E eu palpei-me logo ali, disposto a achar a razão do médico:
– Não senhor Doutor, não sinto qualquer mazela. Tenho a certeza que é do coração.
Então ele puxou do estetoscópio, e esteve um tempo a auscultar-me. Depois olhou-me, e de repente perguntou:
– Foi pai recentemente?
Creio ter estado uns segundos sem responder, na dúvida se estava perante um daqueles médicos com poderes especiais de cura de que se ouve falar. Confirmei o veredicto do médico temendo o diagnostico que aí vinha.
– Pode estar descansado – disse ele de pronto, com o alheamento típico de quem está habituado a este tipo de coisas.
– O que sente é perfeitamente normal! Acontece à maioria dos pais.
Atentei nos seus olhos, disposto a saber exatamente o que queria ele dizer com aquele “Acontece à maioria dos pais”.
– Você agora não tem um coração, tem dois.
– Dois?
Ele respirou fundo. Tornou a sentar-se.
– Repare. Já ouviu decerto a expressão: sentir as dores do outro. Uma pessoa quando tem um filho, passa a sentir outro coração a pulsar dentro de si. Acredite no que lhe digo! Um coração por cada filho que tenha! Daqui para a frente passa a sentir tristezas que não são suas, alegrias súbitas e humores contagiantes. Agora que foi pai, tem de saber destas coisas: o que sente, é tão só, o aperto do amor.

